quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Olha a vaga! Olha a vaga!

Mais uma vez o governo tenta implantar outro tipo de cota. A Câmara dos Deputados aprovou projeto que reserva no mínimo 50% das vagas nas universidades públicas federais para estudantes que tenham cursado integralmente o Ensino Médio em escolas públicas. A proposta destina essas vagas aos estudantes oriundos de famílias com renda per capita de até 1,5 salário mínimo (R$ 622,50). Será necessário reservar, em cada concurso de seleção para ingresso em seus cursos, no mínimo 50% de suas vagas para alunos que tenham cursado integralmente o ensino fundamental em escolas públicas e se aplicará o mesmo critério das universidades para a admissão de negros e indígenas. Estupidamente tentamos tapar o buraco da deficiência do ensino brasileiro no topo da pirâmide.

Por que todas as propostas oriundas do governo para a “igualdade” e “melhoria” do ensino público do país são sempre voltadas para o ensino superior? Tivemos um exemplo claro nos últimos anos com o REUNI, deu certo? Tecnicamente sim, mas o fato é que as universidades não foram bobas de dispensar uma larga quantia de dinheiro oriunda do governo federal. Já foi provado por A+B que o sistema de cotas é deficiente, afinal, qual o problema em ser negro ou indígena? Nenhum! Os problemas são nossas escolas públicas de ensino básico e médio. Negros, índios e brancos estudam em escolas públicas, porque todos esses não merecem direitos iguais ao entrar na universidade? Será que todos são igualmente pobres? Será que não existe um branco mais pobre que um negro? Mas por que toda essa raiva pelo sistema de cotas? Bom, ele é inconstitucional afinal, a constituição é clara sobre a igualdade de todos os brasileiros, ele é preconceituoso, pois recria oficialmente a separação de cor e é injusto porque não são apenas os negros e os índios que não conseguem se preparar adequadamente para um exame vestibular.

Existem aqueles que defendam que essa é a solução para o fim da desigualdade social e intelectual. O deputado federal, Henrique Fontana (PT-RS), acredita que o projeto será capaz de melhorar as condições de acesso dos mais pobres às universidades públicas e eliminar diferenciações raciais. Outro argumento é que o ideal seria a extinção do vestibular, mas, como tal objetivo ainda não pode ser alcançado, a proposta é de estabelecer uma mudança gradual, deixando 50% das vagas no padrão convencional de ingresso na universidade. E ainda, falam de justiça social. Tudo besteira.

Justiça social? Quando é que o Brasil vai ter algo parecido? Mudando o sistema de entradas das universidades estamos fazendo justiça? Pra mim isso soa mais como injustiça. Vamos colocar cada vez mais pessoas nas universidades, vamos lotar as universidades, vamos inserir pessoas oriundas de um sistema de ensino médio deficiente no ensino superior, e com isso melhoramos o país. Belos argumentos. É fato que 68% da população que recebe até 03 salários mínimos são negros, mas isso não define toda a população negra como pobre, isso não define que a outra parte não seja composta de brancos pobres. Algumas autoridades ainda têm o absurdo de falar que como não tem como extinguir o vestibular, a solução é consertar o sistema com essas propostas meia boca. Por que não existe meios de mudar o sistema de ingresso nas universidade públicas? Pra mim isso soa como falta de vontade, acomodação, medo. Não querem mexer em um sistema que arrecada grandes montantes de dinheiro para as universidades. A limitação de vagas, a serem disputadas em vestibular, não é o sistema do mérito, mas o sistema da hipocrisia. Mas qual seria a solução? Seria muito mais simples, utilizar suas notas, seu comportamento, seu histórico escolar como argumento de entrada no ensino superior ou até mesmo como funciona na França, há uma garantia de vagas nas universidades para todos os estudantes que prestarem um exame de saída do ensino médio.

Aliado a todo esse cenário, ainda temos a desqualificação do processo de seleção brasileiro. É de conhecimento público a mistura que é o povo brasileiro. Temos descendências africanas, européias, indígenas, asiáticas entre outras. E quem vai classificar esse povo como negro, branco ou índio? Já tivemos provas que nosso sistema é falho. Em 2007 gêmeos idênticos, filhos de pai negro e mãe branca, deram entrada no sistema de cotas da UNB (Universidade de Brasília) e um fora classificado como negro e outro como branco.

Vamos continuar tentando modificar o topo da pirâmide, vamos continuar mudando o nosso ensino superior público, enquanto a base da pirâmide, o ensino fundamental e médio continua gritando por socorro. Estudantes continuarão com seus livros e escolas públicas precárias, tendo uma educação inferior em relação as escolas privadas e quando terminarem o ensino médio, depois de terem passado pelo inferno que são nossas escolas públicas, poderão entrar na universidade por meio do sistema de cotas e cada vez mais para solucionar um problema, os nossos governantes irão criar um novo, vão tapar um problema com outro e assim a bola de neve estará criada, seguindo ladeira abaixo e explodindo em um Brasil futuro, com grande parte da população adulta com ensino superior, com as universidades lotadas e com nosso sistema de ensino fundamental e médio ainda ineficazes. Bem, por que então não criamos um sistema de cota baseado na etnia e na classe social, para se candidatar a deputado?

4 comentários:

Priscylla Miranda disse...

Adorei seu texto Hugão. Concordo plenamente, a mudança tem que começar no ensino fundamental e médio, é com bases fortalecidas que nos sentimos preparados para desafios futuros. Não é melanina a mais ou a menos que vai definir seu potencial intelectual e sim uma boa educação. Vamos dizer não a discriminação e sim a melhoria e igualdade. Boa Sorte com seu novo blog. Beijos. Priscylla Miranda.

Anônimo disse...

Vamos logo é acabar com a maldita pirâmide que coloca alguns acima de outros, gerando toda a desigualdade! A sociedade, se for levar em conta a igualdade apregoada, é inconstituicional. A sociedade capitalista sempre terá seus remédios placebos, farinhas para tapar a boca de qualquer manifesto. É preciso derrubar essa maldita pirâmide de hierarquias... que o conhecimento não seja mais uma hierarquia, como "fundamental, médio e 'superior'", que o conhecimento seja a liberdade e a dignidade de todos! o/

Abraço Hugão.
Alessandro.

Anônimo disse...

Deixo aqui, pra dares uma olhada, meu blog:

http://lobovermelho.blogspot.com

o/

Anônimo disse...

Amigo, compartilho em alguns pontos a sua opinião, porém com algumas ressalvas.
Parece claro para a maioria das pessoas que sistema de cotas é uma medida paliativa e inconstitucional no momento em que é desigual no critério de avaliação de parte da população para cobrir o buraco da desigualdade já existente.
Tomando como base o princípio da isonomia expresso no art 5° da Constituição, todos são iguais perante a lei, salvo aqueles que são desiguais, ou seja, nossa constituição prevê o tratamento desigual para os desiguais para que se tornem iguais de fato. A constituição não descreve todas as situações possíveis de desigualdade, mas deixa a questão aberta à interpretação em cada caso especifico.
Nesse sentido, o sistema de cotas é sim um instrumento que atua dentro da constitucionalidade na tentativa de promover o que pelo art 5° é de direito de todos.
O sistema de cotas para as universidades é uma espécie de extensão de outros sistemas de cotas que existiram anteriormente na historia da educação brasileira, como por exemplo, o decreto de lei de lei do governo em 62 (eu acho) onde todos os alunos reprovados no 1° ano da Escola Normal eram automaticamente aprovados para o 2º ano, pois não haviam mais vagas para alunos novos no 1º ano diante de tantos reprovados. Essa medida expôs a total desestruturação da educação brasileira onde os alunos sofriam com o analfabetismo estrutural e os professores não estavam preparados para lidar com essas demandas.
Claro que a situação não melhorou em nada durante a ditadura, mas se pularmos até os anos 90 e o programa de “educação para todos” que em tese deveria promover a igualdade de ensino para toda a população, observamos facilmente a hipocrisia e a até a crueldade com que se trata o estudante de escola publica. Não se pode ensinar a mesma matéria, da mesma forma, para um estudante que mora com os pais em casa própria, tem carro, professor particular e acesso a internet, e um estudante que vai a pé para a escola, tem de trabalhar depois da aula e tem uma dieta pobre.
Da mesma forma, você tem de concordar que é bem mais difícil que esse estudante pobre aprenda física quântica para passar em um vestibular. Supondo que esse aluno seja negro (como 80% é ) e passe em jornalismo dentro da cota, dai que vem um monte de gente afirmar que ele tem menos capacidade, que isso prejudica o nível do curso, mas, meu cu, quem merda estuda física quântica na faculdade de jornalismo, direito, medicina, biologia e em quase todos os cursos que não sejam da área de calculo? A diferença entre esse estudante que entrou na cota e eu, ou você, talvez seja 5 aulas particulares com um professor de física no qual ele não pode pagar. Física essa que será esquecida pela maioria dos que a estudaram assim que passam no vestibular. Isso é correto? Não, mas é real.
O sistema de cotas não é nem de longe a solução para desigualdade social, financeira e intelectual dentro do mercado de trabalho. Aliás, como disse esse Alessandro ai em cima, essa desigualdade é inerente ao sistema capitalista. Mas eu acredito que essa seja uma medida necessária, mas infelizmente, sem que seja acompanhada pela educação de base como você disse, ela é apenas uma medida para tapar o sol com a peneira. Sou a favor do sistema de cotas apenas como uma medida dentro de um pacote de mudanças REAIS dentro da educação e de toda a sociedade.